Sabia que...
No SMACTE muitas vezes ouvimos: “Mas se lhes dão seringas ou kits de consumo, não estão a promover o uso?” Não! Estamos a prevenir infeções, overdoses e mortes evitáveis. A Redução de Risco e Minimização de Danos (RRMD) não parte da moral, mas da realidade: as pessoas vão continuar a consumir – com ou sem apoio.
A nossa presença permite que o façam com mais segurança e abre caminho para:
- cuidados de saúde
- apoio social
- tratamento
Segundo o EMCDDA (European Monitoring Center for Drugs and Drug Addiction), os programas de trocas de seringas reduzem a transmissão de VIH em até 33% entre pessoas que usam drogas injetáveis.
Apoiar não é facilitar o consumo. É evitar consequências graves enquanto se cria o espaço para a mudança!
O Programa de Troca de Seringas (PTS) existe em Portugal desde 1993. Já contribuiu significativamente para reduzir a transmissão do VIH e da Hepatite C entre pessoas que consomem drogas injetáveis. No SMACTE trocamos em média 100 seringas por mês. Garantindo que cada uma delas é uma oportunidade de prevenção e contacto com alguém que, muitas vezes, está fora dos circuitos formais de saúde.
O que fazemos?
- distribuímos seringas esterilizadas
- recolhemos as seringas usadas
- estabelecemos contactos
- divulgamos cuidados de saúde
Trocar seringas não é promover o consumo. É proteger vidas!
O preconceito é uma barreira real! Muitas pessoas que utilizam drogas evitam serviços de saúde por medo de julgamentos, maus-tratos ou humilhação. Estudos (European Monitoring Center for Drugs and Drug Addiction (EMCDDA), 2021 e Organização Mundial da Saúde – Health and Human Rights of People who use Drugs, 2022) mostram que até 70% das pessoas utilizadoras de drogas já sentiram discriminação em contextos de saúde ou apoio social.
O SMACTE e o trabalho na rua criam pontes. Quando há confiança, as pessoas procuram ajuda. Sem ela, afastam-se. O que fazemos? Promovemos a redução do estigma através de:
- campanhas de sensibilização
- mensagens empáticas na rua
- partilha de histórias humanizadas
- pontes com serviço de apoio
O primeiro passo é ouvir sem julgamentos. Estamos aqui para acolher sem preconceitos!
Nas ruas, nas notícias ou nas conversas de café, o estereótipo persiste: “Estão na rua porque são toxicodependentes”. Falso! Muitas Pessoas em Situação de Sem-Abrigo nunca consumiram drogas. Muitas pessoas que consomem drogas têm casa, trabalho e família. Segundo o relatório “Sem-Abrigo em números” (ENIPSSA, 202), apenas cerca de 35% das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo identificadas em Portugal apresentam consumos problemáticos de substâncias.
As causas da exclusão habitacional são complexas:
- problemas de saúde
- desemprego
- violência doméstica
- ruturas familiares
- entre outras
Reduzir esta realidade a um problema de drogas é ignorar a raiz social do fenómeno e reforçar o estigma.
Naloxona é um medicamento que salva vidas – literalmente. Em situações de overdose por opiáceos (como heroína, fentanil ou metadona), a administração da Naloxona pode reverter os efeitos em poucos minutos, permitindo que a pessoa volte a respirar. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o acesso à Naloxona poderia evitar mais de 20.000 mortes por ano na Europa. Ainda assim, em muitos países, o acesso continua limitado.
Peças chave na redução de mortes por overdose:
- Equipas de Rua
- Programas de Troca de Seringas
- pares capacitados para administrar Naloxona
Administrar Naloxona não é incentivar o consumo. É garantir que alguém tenha uma nova oportunidade de viver.
O caminho para a recuperação não é linear, nem igual para todas as pessoas. E – importante! – nem sempre começa pela abstinência. Há pessoas que, mesmo consumindo, recuperam autonomia, voltam a trabalhar, reconstroem relações com a família e vivem com dignidade.
De acordo com o modelo Recovery-Oriented Systems of Care, a recuperação é definida como um processo pessoal, com foco em:
- saúde
- autonomia
- inclusão
- bem-estar
E não apenas na abstinência.
A Redução de Riscos permite apoiar pessoas em diferentes fases da sua vida – sem excluir, julgar ou impor modelos únicos. A autonomia pode coexistir com o consumo. Muitas vezes, o que impede a autonomia é o estigma.
No SMACTE trabalhamos diariamente com pessoas que enfrentam desafios complexos e um dos nossos focos principais é o rastreio de infeções como:
- VIH
- Hepatite B e C
- Sífilis
Sabia que um teste rápido, que demora apenas alguns minutos, pode mudar o destino de uma pessoa? Detetar precocemente permite o início do tratamento o mais rapidamente possível. Um estudo do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) realça a importância de programas de rastreio para reduzir a transmissão de infeções. Dados da Direção-Geral da Saúde (DGS) em Portugal mostram que, embora os casos de VIH tenham vindo a diminuir, a infeção continua a ser um desafio de saúde pública. É por isso que o nosso trabalho de rastreio contínuo é tão vital.
Junte-se a nós nesta missão de cuidar! Cada teste é um passo em direção a uma vida mais saudável e segura.
No contexto da dependência de opioide, como a heroína, o SMACTE utiliza uma abordagem cientificamente comprovada que reduz significativamente o risco de morte: o tratamento com Metadona (PSBLE – Programa de Substituição de Baixo Limiar de Exigência).
A Metadona é um medicamento opioide de ação prolongada que estabiliza a pessoa, eliminando a necessidade de consumir heroína e reduzindo drasticamente o risco de uma overdose fatal. Estudos (Gowing et al (2008), Tilson et al (2007) e Sorensen and Copeland (2000 indicam que o PSBLE está associado a uma diminuição significativa da proporção de participantes que referem consumir drogas injetáveis, bem como da frequência da injeção, associado também a uma diminuição significativa da partilha do material de injeção. Igualmente, é evidente uma redução do risco de morte por overdose de opiáceos (EMCDDA, 2010).
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT) reforçam que os programas de substituição com Metadona são a intervenção mais eficaz para tratar a dependência de opioides e reduzir os danos associados. Em Portugal, a sua utilização é um pilar no combate aos riscos de saúde e sociais.
A Metadona permite que a pessoa se liberte do ciclo diário de consumo, abstinência e procura de droga. E esta estabilidade é fundamental!
A Metadona não é apenas um medicamento. É uma ferramenta de esperança que permite às pessoas recuperar as suas vidas e construir um futuro.
A dependência de substâncias psicoativas é reconhecida como uma condição crónica, semelhante a doenças como a hipertensão, asma ou diabetes. Isso significa que o caminho até à mudança nem sempre é linear – e as recaídas são uma experiência comum.
Estudos indicam que entre 40% e 60% das pessoas em tratamento de dependência experimentam pelo menos uma recaída ao longo do seu processo de reorganização (https://www.addictiongroup.org).
A maior parte das recaídas ocorre nos primeiros meses após o tratamento, sendo muitas vezes um reflexo de desafios com gatilhos ambientais, stress ou necessidade de apoio psicossocial contínuo. A recaída não deve ser vista como uma “falha pessoal”, mas antes com parte do processo de aprendizagem – sinalizando que o plano de suporte/acompanhamento precisa de ajustes ou reforço para fortalecer novas estratégias de coping e suporte social.
Por isso, apesar de ser um momento difícil, a recaída pode servir como oportunidade para reforçar estratégias e consolidar novos suportes – e isso faz parte da perspetiva de redução de riscos e minimização de danos promovida pela Equipa SMACTE ao respeitar ritmos individuais.
A abordagem de Redução de Riscos e Minimização de Danos (RRMD) que a Equipa SMACTE mobiliza, vai muito para além da prevenção dos riscos imediatamente associados ao consumo de drogas como a transmissão de doenças infeciosas ou mortes por overdose. Também funciona como ponte para o acesso a serviços de saúde, apoio social e rede comunitária.
Está comprovado que pessoas que utilizam programas de troca de material (para consumo) têm até 5 vezes mais probabilidade de iniciar um programa de tratamento de dependências e cerca de 3 vezes mais probabilidade de reduzir ou interromper o consumo, em comparação com pessoas que não usam estes programas. O Programa de Troca de Seringas que é uma das estratégias de RRMD, está associado a reduções de até 50% na transmissão de VIH e Hepatite C entre pessoas que injetam drogas, ao combinar distribuição de seringas esterilizadas com educação e ligação a cuidados de saúde (www.euda.europa.eu/publications/european-drug-report/2025/harm-reduction).
Por isso, investir em estratégias de RRMD significa criar oportunidades de contacto, confiança e acompanhamento, que muitas vezes se tornam o primeiro passo para mudanças mais profundas — incluindo o acesso ao tratamento. Porque, muitas vezes, o caminho para a recuperação começa simplesmente por manter a porta aberta.
Em Portugal, em 2023 foram registadas 387 mortes relacionadas com drogas de acordo com os dados do relatório anual do ICAD, tendo como base registos clínicos e forenses. Destes, 80 óbitos (21%) foram classificados como mortes por overdose – um aumento de cerca de 16% em relação a 2022 e o valor mais alto dos últimos anos.
Muitas overdoses acontecem quando a pessoa está sozinha, sem apoio imediato que possa reconhecer sinais de intoxicação e intervir. Por isso, a Equipa SMACTE veicula nos seus ensinos para a saúde a importância de ter a companhia de alguém treinado para identificar os sinais de overdose. A equipa também disponibiliza o acesso a naloxona — um medicamento que pode reverter uma overdose por opióides — e orienta para o seu uso adequado. O consumo consciente, informado e acompanhado pode fazer toda a diferença e salvar vidas.
(https://www.phila.gov/pt/programs/substance-use-prevention-and-harm-reduction/harm-reduction).
